Hipnoterapia de Grupo – Utilização de uma metáfora para prevenção das recaídas em alcoólatras.

Dr. Júlio César de Almeida Barros Psiquiatra com 36 anos de experiência clínica e formação em  hipnoterapia individual e de grupo. Criou e inaugurou o Pronto Atendimento Psiquiátrico em 1987, desde então, adquiriu grande conhecimento e prática em emergências psiquiátricas.

No momento de alcoólatras tenho seguido os seguintes passos:

  • Internação para desintoxicação
  • Sensibilização e esclarecimento
  • Hipnoterapia de grupo

3.1- Com os próprios alcoólatras.

3.2- Com os familiares, principalmente esposas trabalhando a relação de codependência

4- Prevenção de recaídas

 

Em outros textos já apresentados, aqui neste Grupo de Estudos, abordei os três primeiros itens. Hoje vou deter-me à Prevenção de Recaídas.

Transcrito do Livro Prevenção da Recaída : um manual para pessoas com problemas pelo uso de álcool e das drogas / Paulo Knapp, José Manoel Bertolote e cols – Porto Alegre – Artes Médicas Sul, 1994, conceitua:

 

O que é Recaída?

É a volta que ao uso do álcool ou drogas do mesmo jeito que a pessoa usava antes de iniciar um programa de tratamento e recuperação

O que é prevenção da Recaída?

É um conjunto de habilidades e modificações de estilo de vida da pessoa para evitar uma recaída. Dizendo de um outro modo, a Prevenção da Recaída é um programa da autocontrole e manutenção que visa:

  • À aquisição de habilidades para lidar com as situações de risco;
  • À modificação do estilo de vida.

 

Num programa de Prevenção da Recaída você não é um paciente passivo, você é o agente ativo da sua recuperação.

 

      A motivação para a mudança é um passo decisivo, mas é apenas o primeiro passo. O importante é desenvolver as habilidades para líder com as situações de risco e modificar seu estilo de vida.

O que é Situação de Risco?

 

É qualquer situação da sua vida que coloque em perigo o seu controle e a manutenção do seu objetivo.

 

Grupo I – Lidar Com Emoções Negativas

 

  • Quando eu me sinto deprimido, triste, desanimado
  • Quando estou ansioso ou estressado;
  • Quando sinto angústia, sem razão aparente;
  • Quando me sinto sozinho, isolado;
  • Quando estou preocupado;
  • Quando me sinto culpado ou envergonhado;
  • Quando me sinto frustrado, alguma coisa não deu certo;
  • Quando me sinto tímido, imbido;
  • Quando me sinto rejeitado ou ‘’por baixo’’;
  • Quando me sinto criticado, ou humilhado;
  • Quando sinto pena de mim mesmo;
  • Quando me vem lembranças ruins da minha vida;
  • Quando sinto inveja ou ciúmes;
  • Quando me sinto confuso, atrapalhado;
  • Quando sinto raiva ou ressentiado;
  • Quando sinto tédio da vida.

 

Grupo II – Lidar com Situações Difíceis

 

  • Enfrentar compromissos ou reuniões sociais;
  • Enfrentar reuniões de trabalho;
  • Falar em público;
  • Falar com estranhos;
  • Falar com chefe ou superior;
  • Lidar com desentendimentos no trabalho;
  • Lidar c/ discussões e/ ou desentendimentos c/ cônjuge ou familiar;
  • Iniciar relacionamento amoroso;
  • Terminar relacionamento amoroso;
  • Lidar com cônjuge ou namorada que também bebe ou usa droga;
  • Lidar com o fato de que todos os amigos também bebem ou usa droga;
  • Enfrentar situações de doença ou morte;
  • Enfrentar noticias ruins;
  • Lidar com viagens;
  • Lidar com negócios.

 

Grupo III – Lidar com Diversão e o Prazer

 

  • Em comemorações e festas, ou boates;
  • Quando me sinto eufórico, alegre, excitado;
  • Quando estou com amigos que estão bebendo ou usando droga;
  • Quando alguma coisa boa acontece;
  • Quando recebo dinheiro;
  • Quando estou apaixonado;
  • Lidar com situação sexual;
  • Quando assisto à TV;
  • Quando pratico esportes, exercícios, caminhadas;
  • Quando saio para viajar, para praia, pescarias,
  • Nos fins-de-semana ou feriado
  • Nas férias.

 

Grupo IV – Lidar com Problemas Físicos ou Psicológico

  • Lidar com insônia;
  • Lidar com problemas sexuais;
  • Lidar com dores físicas;
  • Lidar com doenças próprias;
  • Lidar com doença ou morte na família
  • Lidar com cansaço ou sono;
  • Lidar com sentimento de solidão, isolamento;
  • Lidar com sentimentos ou pensamentos desagradáveis;
  • Lidar com medos (de andar de avião, de sair à rua, ou outro medo, por exemplo).

 

Grupo V – Lidar com Hábito de Usar Álcool  ou drogas

  • Quando termino o trabalho;
  • Quando chego em casa, no fim do dia:
  • Quando vejo bebidas alcoólicas ou drogas por perto;
  • Quando vejo pessoas bebendo ou usando drogas;
  • Quando os amigos me oferecem (ou pressionam) para eu beber ou usar droga;
  • Quando sinto vontade de beber às refeições , ou em outras situações nas quais eu habitualmente bebia ou usava droga;
  • Quando vou a shows, ou a partidas de futebol.

Grupo VI – Lidar com o Tratamento

  • Quando sinto que meu trabalho está indo muito lento ou é mais difícil que eu imaginava;
  • Quando sinto que ainda falta muito caminho a percorrer para minha recuperação;
  • Quando estou com excesso de confiança na minha recuperação (‘’nunca mais vou beber’’);
  • Quando penso que não vou ser capaz de obter o prazer de viver sem beber ou usar drogas (‘’a vida fica muito sem graça’’)
  • Quando sinto falta das metas e objetivos na vida;
  • Quando penso que já estou velho demais para parar (‘’agora já é tarde’’);
  • Quando penso que ainda posso aproveitar mais um pouco (‘’só vou dar um tempo’’);
  • Quando penso em experimentar de novo, só para testar o meu controle;
  • Quando sinto que não quero me envolver com o tratamento (‘’me forçaram a me tratar’’)
  • Quando Sinto que não estou trabalhando no meu Plano de Recuperação (‘’acho um saco isso tudo’’);
  • Quando sinto que não estou colocando em prática o meu Plano de Recuperação;
  • Quando sinto que o tratamento não está me ajudando;
  • Quando sinto que o meu terapeuta (ou a equipe terapêutica) não está me ajudando;
  • Quando sinto que a minha família não está me ajudando.

 

Quanto mais e melhor a pessoa aprender a lidar com essas Situações de Risco, mais forte ela ficará, maior capacidade terá para lidar com outras Situações de Risco que aparecem em sua vida. Nós chamamos isso de auto-eficiência, a habilidade que a pessoa tem para lidar com situações de risco sem beber ou usar droga.

 

            Neste programa de Prevenção da Recaída, uma idéia fundamental é a de que a dependência, isto é, a relação afetiva que a pessoa estabelece com o álcool ou a droga é um aprendizado. Quer dizer, a pessoa aprendeu a se relacionar com o álcool ou a droga de forma tão intensa que lhe parece ser impossível lidar com a vida se não estiver apoiada pela droga. Então, o jeito é ‘’desaprender’’ esta relação e reaprender um modo de se relacionar com a vida.

Portanto, a Prevenção de Recaída é um programa de tratamento que conscientiza a pessoa para antecipar, prevenir, modificar, enfrentar e lidar com situações que a coloquem em risco para a recaída, isto é, situações que façam com que ela volte a consumir álcool ou outras drogas.

Além disso, como já foi dito, a pessoa interessada em seguir este programa da recaída deve fazer também amplas modificações no seu estilo de vida, para que a sua recuperação dê certo.

 

Utilização da Metáfora

Numa das sessões de hipnose em grupo, após a indução, com a respiração e o relaxamento corporal, aprofundei o transe, valendo-me da metáfora adiante:

Olhe bem com os seus olhos para dentro. Olhe bem por trás dos seus olhos. E agora, imagine, veja-se dentro de um corredor escuro. Talvez você possa sentir bem aí. Porque há muita gente que prefere a escuridão do que a claridade. Inclusive a maioria das pessoas preferem dormir com a luz apagada. Outros até preferem colocar uma venda nos olhos para dormirem melhor. Entretanto existem outras pessoas que tem muito medo da escuridão. De qualquer modo, agora, neste momento, eu gostaria que você se imaginasse, dentro de um corredor escuro. Não sei se você está sentindo bem ai, ou se está com medo, ou se é indiferente. Mas imagine que agora a sua frente aparecesse uma luz que fosse iluminando o corredor. Pode ser uma lâmpada, uma lanterna, uma vela. De qualquer modo gostaria que você imaginasse uma luz que começasse a se movimentar na sua frente. A luz segue adiante. É uma luz que movimenta. Então a luz começa iluminar o corredor, movendo-se para frente, até que a luz termina no final do corredor, parando numa porta. A medida que a luz vai movimentando, para trás vai ficando escuro. Então agora você está diante de um dilema. Agora você está em dúvida. Você não sabe se abre a porta, porque você não sabe o que tem do outro lado da porta. Você olha para trás e tudo está escuro. Mas como eu disse existem pessoas que gostam, preferem e até sentem bem na escuridão. Existem pessoas que tem medo de arriscar, principalmente porque, não sabe o que tem do outro lado da porta. Outros porém passam a vida toda correndo risco, tentando ver algo novo. Algumas pessoas tem medo do novo, do desconhecido. Então você está em dúvida, não sabe se abre a porta, ou se fica no corredor. Até que finalmente você corre o risco e abre a porta. E quando você abre a porta, nada de excepcional, nada de surpresas, apenas uma rua. É como se você estivesse dentro de uma casa e abrisse a porta e visse a calçada, a rua. Mas ali na rua existe uma criança com uma bicicleta na mão. Essa criança dirige até você e te pede que você a ensine, andar de bicicleta.

Então você diz para ela. Está bem. Monte ai. Suba na bicicleta. Coloque os pés nos pedais. Firme as mãos nos guidons, e olhe para frente. Sempre olhando para frente assim você consegue maior equilíbrio. Força nos pedais, olhe para frente, aí você conseguirá equilibrar-se na bicicleta. Aí você dá um pequeno empurrão, a criança coloca os pés firmes nos pedais, com força, olha pra frente e sai andando toda satisfeita. No dia seguinte a criança volta toda animada e trás consigo seus amiguinhos para mostrar para eles o jeito que está andando de bicicleta.

Aí você faz a mesma coisa, coloca ela no assento, dá um pequeno empurrão, e a menos de 50 metros, a criança e a bicicleta desequilibram e caem no chão. A criança desaba a chorar. Então você chega perto da criança e diz. Vamos, levante, é assim mesmo, quer aprender andar de bicicleta, cai, levanta, cai levanta. A criança diz, não, eu nunca mais vou andar de bicicleta. Nunca mais. Com os olhos cheios de lágrimas, olhando para os amiguinhos, nunca mais. Aí você insiste, nada disto, vamos levante, se você não tentar nunca mais vai conseguir. Vamos tente, levante. Com muito custo, a criança, desanimada, quase como que obedecendo a ordem sua, levanta e fica de pé. Você coloca novamente no assento e diz, você caiu, porque você ficou olhando  para baixo. Você ficou olhando para o pedal da bicicleta, você esqueceu do que eu te disse ontem. Olhe para frente e força nos pedais. E assim a criança procedeu e outra vez equilibrou perfeitamente na bicicleta, dando tantas voltas quanto desejou e saiu toda satisfeita consigo mesma e aplaudida pelos amiguinhos.

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